A realidade é passagem por outridade. Pelo tato, pelo cheiro, os olhares e os ouvidos é que existe o tudo. Uma cadeira é só cadeira por ser sentada, e pode ainda ser escada, mesa, parede, obstáculo.
O coração é uma ferida imposta em nosso dentro. Se se foge à intensidade de costume de toque na carne etérea faz sensível o que já é, em essência, dor. Uma chaga na pele, mesmo que no avesso, cumpre-se na sensação de desgracência por forçá-la ao nulo dos sentidos. A quantidade de dor suportada serve fazer medida de contentamento pela ausência. Por se carregar um quilo de sofrimento, sente-se um quilo de satisfação na não-carregância.
Como balança e areia trocando de prato, a verdade cardíaca é o contato. Toda existência se define pelo uso. O coração é mágoa-bundo. Se não dói, diz-se que nunca existiu.
