sábado, 31 de março de 2012

Passo

Meu pé rachado
Meu casco
Meu pé imundo
Já passou por tanto chão
Por tanto beco escuro
Por tanta perturbação
Por tanto topo de muro
Por tanta atribulação
Por tanto asfalto duro
Por tanta humilhação
Por tantos anos de vida
Por tanta ponte insegura
Portanto minha sola é tinta
Minha pegada é pintura
Meu rastro é palco
Meu mancar é dança
Minha vida é nuança
Do muito que eu sou

O cheiro

O cheiro do seu perfume
misturado ao suor de nossos beijos
Ainda me lembro
mesmo sem querer
mesmo sem gostar
Respirei fundo e senti
as lembranças
imagens de olhos fechados
sons de ouvidos atentos
um arrepio - talvez de nojo
talvez de medo
Mais um segredo
Em cada curva
o cheiro se jogava sobre mim
Grudava como se você mesmo pesasse sobre meu corpo
ou me segurasse no colo
com suas mãos
pousadas sobre meu quadril sobre você sobre o sofá
Eu preferiria nem lembrar
eu preferiria nem ter vivido
Como eu queria não me arrepender

segunda-feira, 26 de março de 2012

Pra ninguém ler

Cinza.
Como o céu de abril e suas nuvens de chuva grossa, como o pelo de um gato de rua.

Busco as minhas mágoas nos versos que leio.
Busco um pouco de mim nos seus versos também.
Um fio de cabelo, um suspiro, uma lasca de unha, uma marca de rímel,
uma palavra ambígua, um cheiro bom, um olhar, uma insinuação,
um reflexo de óculos, uma marca de pé, uma cicatriz

Qualquer coisa que eu tenha esquecido,
Qualquer coisa que você tenha lembrado

Busco em todos os poemas do mundo as palavras precisas
Palavras necessárias
Palavras pra me expressar, pra me escrever, pra ninguém ler

Pura melancolia, pura preguiça

Eu não sei nada, não sou nada, não faço nada, não falo nada.

Não sei nadar no seu sangue e me instalar no seu coração
E nem soube criar uma metáfora que ilustrasse a minha incapacidade de amar e ser feliz.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Uma lacuna

Eu acho que você está ao meu lado - mas não está
Eu não te busco
Não estou em você nem mesmo por um segundo, um mililitro, uma polegada

Eu não sou nem faísca no seu olhar
Eu não sou nem pó na sua pegada
Eu não sou nem penugem no seu vôo
E eu não sei voar

Talvez fosse melhor te conhecer em outra vida
Você me dá vontade de não viver mais

terça-feira, 13 de março de 2012

Quero que você me veja e
quero que você me goste
Quero que você, de longe,
me aponte e diga "é meu"

Uso capião, usucapião

Venha aqui e tome posse

sábado, 10 de março de 2012

Mil e noventa e seis dias

Há um pouco de você em cada verso
em quase todos

Sua ausência eterniza
sua existência todos os dias em minha solidão

É te amar sem atrito
amar no silêncio
calar

É uma polpa de frutas
dissolvida na caixa dágua
É um suco tão fraco, tão com gosto de nada

Eu que quis que você fosse um sinal na minha pele
ou um pé de jambo no meu quintal
Pra te ter, te plantar
te esconder, te regar
te coçar, te colher
te lavar, te comer

Ontem eu mal pensei em você
Algum tempo passou, o menino cresceu
Ele aprendeu a amar
A professora não fui eu

O menino passou

Esconjuro

Se não me der coragem de te trazer pra perto
Amaldiçoo até o teu tataraneto
Desejo a teus amores um estrago certo
Te faço engravidar uma mulher sem teto
Caso com Roberto, Humberto, Gilberto
Mas me proíbo de implorar por teu afeto
Portanto, meu querido, seja mais esperto
O meu coração já anda inquieto
De guardar tanto amor que não oferto
Rasgava-lhe as coxas, abria-lhe as costas, sangrava-lhe as carnes, marcava-lhe a cara.
Mordia, unhava, lambia, apertava. E com carícias violentas prendia-lhe o coração à própria alma.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O silêncio

Ela havia bebido duas xícaras de café e comido tantos biscoitinhos amanteigados que seria catastrófico contar. Sendo uma mulher vaidosa, com certeza calcularia as calorias de cada molécula de amido e glicose ingeridos. Ele não dissera uma só palavra. Comera alguns pães, mais fielmente descritos como invólucros de manteiga considerando a abundância com que eram recheados, mas nem tocara na xícara de café com leite, que àquela altura já deveria ter esfriado. Após cada mordida, o marido mastigava olhando para os talheres, as cadeiras, o tapete e os chinelos largados em frente à porta de entrada. Não encarava a mulher. No entanto, dir-se-ia que ela tentava invadir-lhe os pensamentos mirando fixamente a fronte relaxada do homem de quase sessenta anos.

Hilda ouviu o ranger da porta e sua batida, seguida do barulho metálico produzido pelo molho de chaves ao girar trancando a fechadura. Esperava que o marido fosse até a cozinha procurá-la, pois avisara a ele pela manhã que chegaria mais cedo do trabalho, mas a espera foi interrompida pelo som do chuveiro. Logo, Ivan estava cantando a plenos pulmões durante o banho e Hilda preparou a mesa perguntando-se que motivo levara o marido a ir direto para o banheiro sem dar pela sua presença ou avisar-lhe a chegada.

O silêncio intrigara Hilda.

Ela o esperava na sala de jantar. Ivan conservava uma expressão despreocupada quando se sentou à mesa. Hilda encarara o marido à espera de uma explicação, mas ele apenas meneou a cabeça cumprimentando-a enquanto enchia de leite uma xícara.

Hilda não desviou dele o olhar e comia distraidamente, absorta em seus pensamentos. Desde que se conheceram, ela não lembrava um dia sequer em que não houvesse pensado em Ivan. Quando o viu pela primeira vez, entrando timidamente na farmácia que a família de Hilda administrava há muitas gerações, já tinha certeza que se casaria com aquele moço magro, de rosto pálido e bochechas fundas. “Meu cachorro sente dor e a doutora pediu que lhe desse uma injeção”, dissera o rapaz. Hilda, após ter explicado que não trabalhavam com esse tipo de medicamento e, enternecida pelo nervosismo do moço, abandonou o balcão aos cuidados do irmão caçula e acompanhou o desconhecido até a casa de rações mais próxima. Desde então não passaram mais de uma semana sem se falar e nenhum outro homem foi capaz de ocupar a mente de Hilda. Ivan sempre fora onipresente. Não entendia, portanto, por que era castigada com aquele silêncio. Dentre as coisas que censurava no marido, estavam esse silêncio e o olhar desanimado que ele pousava sobre os móveis da casa como que arrependido da vida em comum que construíra. Ivan tinha mesmo um ar de quem estava de passagem pela vida e Hilda admirava-se de vê-lo de raízes fincadas ao seu lado.

Não fosse pela mulher, eles certamente não teriam se casado no religioso e nem mesmo no civil. Ivan sempre afirmara que o casamento acontecia entre o casal sem necessidade de ser celebrado por amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos. Ele não se sentiria menos casado se tivesse apenas arrumado as malas e se mudado para a casa de Hilda em um dia qualquer. Mas, para a mulher, seria “um absurdo não festejar tal passo desperdiçando a felicidade proveniente da decisão, talvez a mais importante da vida de uma pessoa”. Ela nem era religiosa, mas fizera questão de entrar na igreja de vestido branco conduzida pelo pai até o altar, onde Ivan a esperava.

Questionava-se agora se ele não casara apenas por agradá-la. Talvez, por um capricho de menina, ela estivesse arrastando Ivan pela vida contra a vontade dele. Quem sabe ele a amasse mais caso pudesse decidir livremente entre ficar e partir, sem ter que assinar papéis ou dar satisfações a juízes e testemunhas. Certamente ele pensava na vida que poderia levar sem estar preso à sua companhia quando corria o olhar vazio pelos objetos da casa.

Pelo modo como chegara e passara toda a refeição sem dizer palavra, a mulher calculava que Ivan pediria o divórcio dentro em pouco. Se não pedira ainda era por pura inércia. Os homens, Hilda pensava, eram tão acomodados a ponto de viver anos ao lado de uma pessoa sem amá-la, apenas pela praticidade da vida a dois. O que a levava à questão: o que motivara Ivan a abandoná-la? Apenas uma razão muito forte poderia impulsionar uma decisão tão radical a essa altura da vida. Sem sombra de dúvidas ele se apaixonara. A essa conclusão, um fio de lágrimas ameaçou pousar nos olhos de Hilda.

Ela não baixou a cabeça e continuava olhando para aquele homem que há mais de trinta anos fizera morada de seu coração. Às vezes lamentava amá-lo, mas jamais pensara em arrancá-lo de sua vida. Prezava a companhia e os modos do marido. Em décadas de casamento, sempre contornara as explosões do temperamento da esposa e Hilda não saberia mencionar uma só vez em que ele perdera a razão. Ivan não reparava cortes de cabelo, não lembrava datas especiais e não trouxera flores para casa no dia dos namorados mais que três vezes. No entanto, Hilda nunca precisara escolher acreditar na mentira mais conveniente do marido. Ivan não tinha inclinação a meias-verdades, era tão sincero que beirava a ingenuidade. Como então conseguira esconder a insatisfação conjugal, perguntava-se Hilda.

Atormentada por seus pensamentos, parou de comer e se levantou repentinamente. Ivan olhou-a, finalmente, e sorriu.

- Ontem você estava muito contente sem nenhum motivo especial, então é normal estar assim hoje, não é? Vamos ver como acordará amanhã a minha linda esposa cujo humor segue a variação das marés. Dê-me um abraço, Hildinha. Estranhei que você não tenha trocado palavra desde que cheguei, não és como eu, gostas muito de falar. À propósito, não sabia que você chegaria mais cedo. Você avisou e eu me esqueci? Ah, essa minha cabeça de velho...

E Hilda estancou com um beijo o palavrório tão esperado que escapava à boca de Ivan.
 
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