Ela havia bebido duas xícaras de café e comido tantos biscoitinhos amanteigados que seria catastrófico contar. Sendo uma mulher vaidosa, com certeza calcularia as calorias de cada molécula de amido e glicose ingeridos. Ele não dissera uma só palavra. Comera alguns pães, mais fielmente descritos como invólucros de manteiga considerando a abundância com que eram recheados, mas nem tocara na xícara de café com leite, que àquela altura já deveria ter esfriado. Após cada mordida, o marido mastigava olhando para os talheres, as cadeiras, o tapete e os chinelos largados em frente à porta de entrada. Não encarava a mulher. No entanto, dir-se-ia que ela tentava invadir-lhe os pensamentos mirando fixamente a fronte relaxada do homem de quase sessenta anos.
Hilda ouviu o ranger da porta e sua batida, seguida do barulho metálico produzido pelo molho de chaves ao girar trancando a fechadura. Esperava que o marido fosse até a cozinha procurá-la, pois avisara a ele pela manhã que chegaria mais cedo do trabalho, mas a espera foi interrompida pelo som do chuveiro. Logo, Ivan estava cantando a plenos pulmões durante o banho e Hilda preparou a mesa perguntando-se que motivo levara o marido a ir direto para o banheiro sem dar pela sua presença ou avisar-lhe a chegada.
O silêncio intrigara Hilda.
Ela o esperava na sala de jantar. Ivan conservava uma expressão despreocupada quando se sentou à mesa. Hilda encarara o marido à espera de uma explicação, mas ele apenas meneou a cabeça cumprimentando-a enquanto enchia de leite uma xícara.
Hilda não desviou dele o olhar e comia distraidamente, absorta em seus pensamentos. Desde que se conheceram, ela não lembrava um dia sequer em que não houvesse pensado em Ivan. Quando o viu pela primeira vez, entrando timidamente na farmácia que a família de Hilda administrava há muitas gerações, já tinha certeza que se casaria com aquele moço magro, de rosto pálido e bochechas fundas. “Meu cachorro sente dor e a doutora pediu que lhe desse uma injeção”, dissera o rapaz. Hilda, após ter explicado que não trabalhavam com esse tipo de medicamento e, enternecida pelo nervosismo do moço, abandonou o balcão aos cuidados do irmão caçula e acompanhou o desconhecido até a casa de rações mais próxima. Desde então não passaram mais de uma semana sem se falar e nenhum outro homem foi capaz de ocupar a mente de Hilda. Ivan sempre fora onipresente. Não entendia, portanto, por que era castigada com aquele silêncio. Dentre as coisas que censurava no marido, estavam esse silêncio e o olhar desanimado que ele pousava sobre os móveis da casa como que arrependido da vida em comum que construíra. Ivan tinha mesmo um ar de quem estava de passagem pela vida e Hilda admirava-se de vê-lo de raízes fincadas ao seu lado.
Não fosse pela mulher, eles certamente não teriam se casado no religioso e nem mesmo no civil. Ivan sempre afirmara que o casamento acontecia entre o casal sem necessidade de ser celebrado por amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos. Ele não se sentiria menos casado se tivesse apenas arrumado as malas e se mudado para a casa de Hilda em um dia qualquer. Mas, para a mulher, seria “um absurdo não festejar tal passo desperdiçando a felicidade proveniente da decisão, talvez a mais importante da vida de uma pessoa”. Ela nem era religiosa, mas fizera questão de entrar na igreja de vestido branco conduzida pelo pai até o altar, onde Ivan a esperava.
Questionava-se agora se ele não casara apenas por agradá-la. Talvez, por um capricho de menina, ela estivesse arrastando Ivan pela vida contra a vontade dele. Quem sabe ele a amasse mais caso pudesse decidir livremente entre ficar e partir, sem ter que assinar papéis ou dar satisfações a juízes e testemunhas. Certamente ele pensava na vida que poderia levar sem estar preso à sua companhia quando corria o olhar vazio pelos objetos da casa.
Pelo modo como chegara e passara toda a refeição sem dizer palavra, a mulher calculava que Ivan pediria o divórcio dentro em pouco. Se não pedira ainda era por pura inércia. Os homens, Hilda pensava, eram tão acomodados a ponto de viver anos ao lado de uma pessoa sem amá-la, apenas pela praticidade da vida a dois. O que a levava à questão: o que motivara Ivan a abandoná-la? Apenas uma razão muito forte poderia impulsionar uma decisão tão radical a essa altura da vida. Sem sombra de dúvidas ele se apaixonara. A essa conclusão, um fio de lágrimas ameaçou pousar nos olhos de Hilda.
Ela não baixou a cabeça e continuava olhando para aquele homem que há mais de trinta anos fizera morada de seu coração. Às vezes lamentava amá-lo, mas jamais pensara em arrancá-lo de sua vida. Prezava a companhia e os modos do marido. Em décadas de casamento, sempre contornara as explosões do temperamento da esposa e Hilda não saberia mencionar uma só vez em que ele perdera a razão. Ivan não reparava cortes de cabelo, não lembrava datas especiais e não trouxera flores para casa no dia dos namorados mais que três vezes. No entanto, Hilda nunca precisara escolher acreditar na mentira mais conveniente do marido. Ivan não tinha inclinação a meias-verdades, era tão sincero que beirava a ingenuidade. Como então conseguira esconder a insatisfação conjugal, perguntava-se Hilda.
Atormentada por seus pensamentos, parou de comer e se levantou repentinamente. Ivan olhou-a, finalmente, e sorriu.
- Ontem você estava muito contente sem nenhum motivo especial, então é normal estar assim hoje, não é? Vamos ver como acordará amanhã a minha linda esposa cujo humor segue a variação das marés. Dê-me um abraço, Hildinha. Estranhei que você não tenha trocado palavra desde que cheguei, não és como eu, gostas muito de falar. À propósito, não sabia que você chegaria mais cedo. Você avisou e eu me esqueci? Ah, essa minha cabeça de velho...
E Hilda estancou com um beijo o palavrório tão esperado que escapava à boca de Ivan.

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