quinta-feira, 26 de abril de 2012

Poética da coceira

Encontrar o ponto exato da coceira

Esfregar:
com a ponta dos dedos - enquanto for possível
controlar a vontade
saciá-la
com movimentos circulares de carícia
passeio dos dedos pelo alvo da pele
Esfregar:
com as unhas - mesmo que machuque
quando as epidermes não se satisfazem
apelar pra precisão das garras rígidas

Esfregar até manchar vermelho a pele
Esfregar até arrancar tiras de leve
Esfregar até brotar finos de sangue
Esfregar até que a coceira passe
Esperar que a coceira deixe marcas

A depender da intensidade com que a sensação te impera
Talvez as marcas não sumam jamais
Como você é lindo!
Como se eu mesma o tivesse parido
Ou como se você nem tivesse nascido
e fosse não mais que um anjo
Sua cabeça ironicamente
enfeitada de cachos - espirais europeias
Giram perfeitas sem redemoinhos

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Cansaço
: em que não cabe
a vontade de
Conversa
: em que a palavra
é mais que abraço em um
Contato
: em que a ação
importa mais que a
Companhia
: em que uma presença
é para a outra
Colo
: em que a existência
se desgarra do
Cansaço

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Desaflorar

Há quantos anos se conheciam?
Dois talvez, talvez três
Até três ela contaria
Quando sentiu aqueles olhos verdes em seus enormes olhos despreparados
E no 'dois' ele queimou a largada, queimou de timidez as bochechas da mocinha, ferveu a corrente sanguínea, cozinhou os órgãos dentro do corpo conhecido e nunca antes habitado

Ela quis que fosse em maio
Mas em maio não há flores
A primavera chega tarde nas casas em que o telhado é a linha do Equador
E chega devorando os dias, aflorando carências e desflorando as almas: exibindo as lacunas de afeto preenchidas com flores de plástico
Ela quis que fosse em setembro
Setembro chove? Chove em abril
Abriu a boca, os braços e pernas
Fechou os olhos
E arfava pois não podia florir

terça-feira, 10 de abril de 2012

Te trago nos dentes

Encaixado entre os molares, enfiado na gengiva
Rasgando
Não sei se incomoda, só sinto
Te sinto o tempo todo em minha boca
Vivendo no cenário de minha dentição
É tão presente, tão real sua existência
Que eu mostro os dentes
E ando pela cidade distribuindo sorrisos

segunda-feira, 2 de abril de 2012

De dor

De tédio, digo-me triste
De cansaço, triste
Fome, triste - e chego mesmo a chorar a fome, tal um bebê
Mas de tristeza não sinto dor
Essa doença que provoca enjoos e cólicas, febre
Isso que é de fato um caso clínico para os mais sensíveis corações despedaçabandonados
De tristeza, sinto poesia
 
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