segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Freada brusca

O relógio marcava quase 18 horas e o céu, tingido de rosa, escurecia numa velocidade assustadora. As luzes da cidade aos poucos davam o ar de sua graça, procuravam colorir novamente as ruas e calçadas mas conseguiram apenas transformar o bairro em algo parecido com um breu cheio de vagalumes. Elas iluminavam aqui e ali, porém não de uma forma viva e brilhante. Eram apenas apenas luzes melancólicas sobre pontos de sombra densa.
Pelo retrovisor, Helena via muitos e não via nada. Inúmeros carros transportando o cansaço, as preocupações e os planos da cabeça de seus donos. Donos que não tratavam os automóveis com o merecido respeito, já que buzinavam e gritavam uns com os outros, faziam manobras perigosas arriscando a pele dos veículos e, por vezes, precisavam que um outro carro ou um poste entrasse em seu caminho para frear tamanha agitação.
O rádio tocou uma canção de amor. Helena mal podia acreditar em seus ouvidos; a tal música não tocava há meses e isso era ótimo pois as lembranças que ela trazia perturbavam a sua paz. Ela procurou com urgência o botão que calaria aquela voz, mas de nada adiantou pois a voz continuava em sua cabeça. Junto à ela uma confusão de imagens atormentavam Helena; lanches ao meio-dia, jantares à luz de velas, milhões de telefonemas, beijos de novela no cinema.
Aos poucos, lágrimas pesadas começaram a passear pelo rosto de Helena embaçando-lhe a visão. Lembrar do fim de seu noivado deixava-a extremamente abalada. Seu coração diparou e a cabeça começou a doer. Gotas de chuva se misturavam às lágrimas na missão de confundir seus olhos e Helena via muitas luzes piscando molhadas pra lá e pra cá.
Os carros eram levados de um lado para o outro por seus donos, às vezes paravam e às vezes não dava tempo. Cruzavam, ultrapassavam, pisavam fundo no acelerador. Helena sentiu os olhos pesados e o amarelo lhe soou como verde, mas em um instante já era vermelho. Vermelho como o veículo que veio apressado beijar seu rosto. Assustada, ela olhou para o lado e viu dois olhos cheios de desespero.
Helena e o outro carro se encontraram e dançaram juntos rodopiando no ar. A buzina calou de vez a voz da música e o automóvel vermelho veio lhe frear a vida.

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