quarta-feira, 29 de junho de 2011

A garota que não estava apaixonada

Ela não estava apaixonada. Decerto eles haviam passado muito tempo juntos durante o verão e era natural que ela estivesse acostumada a sua companhia. Seria bom trazer os sorrisos daqueles dias ensolarados para a rotina de calça jeans e café preto de todos os dias. Na verdade, ele não era apenas uma presença de verão, mas o mês de janeiro o tornou mais íntimos em meio a tanta praia, sorvete e internet. Ela queria vê-lo todos os dias mas não estava apaixonada. Aquele sentimento era uma vontade de cuidar dele, de fazer parte da vida dele para tornar tudo mais divertido. Duas solidões juntas são menos solitárias do que uma só. Mas nada disso significa que ela estava apaixonada. E o ciúme, na verdade, era pra protegê-lo, pra evitar que alguém ferisse seus sentimentos. Ela já havia sofrido tantas decepções que aprendeu assim a se proteger, se é que se envolver sem se entregar é uma forma de proteção. Mas não queria que seu amigo sofresse tanto pra aprender. Tudo não passava de amor fraternal, não era paixão. Mas, pra dizer a verdade, não havia ninguém melhor do que ela para estar ao lado dele, era fácil perceber. Se eles se amassem ela jamais o magoaria, ele dificilmente não a entenderia e provavelmente tudo seria harmônico entre os dois. Se ao menos ele pudesse amá-la... Mas ela não estava apaixonada.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Nós andando de mãos dadas pela praia. Ela grávida ou com bebê no colo ou nossa filha grandinha nos puxando pelas mãos. Os pés sujos de areia debaixo do chuveiro quente. Banheiro claro com espelho grande. O quarto, paredes verdes, colcha de flores, giz de cera pelo chão, papéis. Meus textos, seus livros, os desenhos das crianças. Escola, quem leva, quem busca, almoço. Esperar, com o coração aos pulos, que ela chegue do trabalho. Ouvir a buzina, correr e abrir o portão. Vê-la chegar, cansada do trabalho. Vê-la, rainha, a entrar em nossa casa. A filha corre e se pendura nos braços da mãe, não quer soltar. Jantar em família. Por a criança pra dormir. Falar aleatoriamente sobre assuntos sonolentos. Apagar a luz. Dormir. Dormir num abraço sob a colcha de flores cercada de paredes verdes.
Eu queria ainda sentir, mas não sei mais. Acho que tudo vira ternura. Acabou, não acabou, nunca nada houve. Agora fica essa sede sem saliva, sem limite, sem sossego. Como se a única água que eu conhecesse fosse água do mar. Por medo, por orgulho, ou sei lá por que, eu nunca tive coragem de procurar a água de coco. Subir no pé, pegar a fruta, chegar ao líquido doce com meu esforço. Não. Preferi ficar na espera de que alguém me trouxesse um copo. O tempo passou com cara de choro, com cheiro de chuva. Eu sequei, não sei como, o coco secou. E as águas de março não prometem vida nenhuma.

Toda mulher

Toda mulher foi menininha
E brincava de amarelinha
Ficava toda vaidosa
De vestidinho cor-de-rosa e boneca na mão

Toda mulher se maquiava
Enquanto o amado esperava
Eles andavam lado a lado
E o pai esperava acordado ela chegar às dez

Toda mulher quer casamento
Sonha com o grande momento
Quer vestido, grinalda e véu
E acha que chegou ao céu quando responde "sim"

Toda mulher é meio atriz
Às vezes finge que é feliz
Quando não goza no amor
Quando espera uma flor e ganha um abajur

Toda mulher sabe cantar
Pinta, borda e cuida do lar
Coloca o bebê pra dormir
Enquanto o marido ri com a televisão

Toda mulher sabe de cor
As historinhas de avó
Que quer contar porque ouviu
E vai fingir que nunca riu pra rir mais uma vez

Toda mulher mudou de lado
Ficou no século passado
Toda mulher é diferente e já não sabe bem quem é

Mas sabe o que não quer ser
 
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