terça-feira, 25 de setembro de 2012

Pedalgar

Um homem que é meu
e me leva no cano da bicicleta
Bicicleta que, sem que eu tenha jamais pedalado
ele chama nossa
Bicicleta que ele senta e pedala
e eu sento

Cruzadas pernas
como uma dama de antigamente
num cavalo de antigamente
dessas histórias de antigamente
que eu nunca li e nunca ouvi
mas sei
Só não sei como

Como se estivesse no meu sangue
nascer sabendo sentar assim

Desde a minha avó
Mocinha do agreste em lombo de jumenta ruça
indo pro litoral
onde o mundo é de mar e ninguém passa sede
onde há saliva para beijos de amor

Desde a minha avó
Viúva de guerra
que teve negado um único pedido por seu homem honrado,
que não quis fugir à luta
Cavalga agora em sonho até o fim da vida

Desde a minha avó
Mulata fugida em cavalo roubado
indo pro quilombo
onde há a alegria de não pertencer
senão a Deus e a seu homem

Desde a minha avó
Escrava romana
com seu companheiro fugindo
de povo tão bárbaro quanto eles já foram
indo pra detrás dos muros de quem os capturara

Desde a minha primeira avó
que amou Adão
ou um Homo algumens coisens

Talvez em quando não há cavalo
mas homem há pra cavalgar

Me despeço com um beijo de contos de fadas
e vejo meu homem
com suas esporas cavalgar
a bicicleta de prata crina e cauda

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Remoto controle

Vamo largar esse negócio
de conta em banco, cartão
Esse papo de gente grande
Traz o lençol e edredon
Traz os gatos
e os cachorros, se tiverem banho tomado
Vamo viver nesse sofá e ligar a televisão
Deixa o controle em minha mão
A gente assiste qualquer coisa
que não seja propaganda política
ou tiroteio e gente morta
Liga em algum programa incapaz de causar revolta
Tem suco e refrigerante,
mas nem traz que vai ficar quente
Melhor água natural,
chá na temperatura ambiente
Café na garrafa térmica e leite só pra pingar
Tem biscoito
Tem sorvete, deixa derreter que eu gosto
A gente pula o almoço
Sobremesa é a comida do rei,
quando a gente é criança
Traz as frutas que eu já lavei
E o lixo pra jogar as cascas?
E a gente sujando o lençol?
E o controle remoto, cadê?
Ficou embaixo de você embaixo de mim,
ou embaixo de mim embaixo de você
Passa a mão procurando
pelas minhas pernas
Você me belisca
e eu te belisco
De belisco em belisco, adivinha...
A gente perde o controle.

Terço da vó

Moletons
Chinelos e meias grossas enfiadas entre o dedão pra calçar
Joelhos no chão

Olhos fechados de não ver:
o vô folheando a revista,
a mãe sentando nos calcanhares,
a mãe comemora a cada mistério que passa,
o pai que boceja,
boceja o avô e toda a família
Quase toda: a vó não boceja

Olhos fechados de não ter vontade:
de folhear também,
de sentar também,
comemorar,
bocejar também,
calar até.

Só a vó agarrada ao terço, tesa:
não senta, não reclama, não boceja, não para.
Sua voz conhecida
Voz de ralhar com os filhos, o futebol e a política
Voz de "bem, põe a mesa" pro vô
Voz de "pega mais, tem mais bife, tem outra panela de arroz"
Voz de ensinar a receita do pão
Voz de minha vó

Só sua voz não se altera
Monotônica, nos arrasta ao último amém.

Fecunda

A poesia me fecunda
Na amarga alegria
doce angústia
de gerar poemas
Nascem de mim infinitos versos

Imitação

E o povo agora vive assim. Fazendo da via de mão dupla uma via de mão nenhuma em que a pista é coberta por carros sem gasolina parados numa sinaleira por onde ninguém vai atravessar. Esses beijos na boca de um alguém que não se sabe. Que nem dar tapa na cara de um manequim de vitrine, a mão que bate é só o que dói. Mas isso ela não tinha nunca feito. Ele, vai saber... Vai ver até tinha. Mas ela não. Na hora ali ela achou que era normal e voou os beiços pro abraço dos dele. E ficou ali pousada, uma boca no colo da outra. Ela afastou um punhado e ele apressou a mão num encontro com a nuca dela, acomodando o bocado de dedos naqueles fios de cabelo. Mas a menina queria que queria abraçar o olhar nos olhos dele e se riu soltando o laço de dedos e nuca e cabelos e mão e fios e bocado. Foi como parar de rir pra tirar uma foto do riso. Como esquecer que mesmo no somar do tanto de foto que já fizeram não cabe a luz toda da lua. E foi no desatar do beijo que a menina tatuou a presença dele no sentimento dela. E no abrir de olhos e separar de corpos - andando de frente um pro outro, cada um pra sua trás, sorriram do que aconteceu e do que teria sido se o beijo não fosse cópia de cópia de cópia, imitação de amor.
 
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