Chinelos e meias grossas enfiadas entre o dedão pra calçar
Joelhos no chão
Olhos fechados de não ver:
o vô folheando a revista,
a mãe sentando nos calcanhares,
a mãe comemora a cada mistério que passa,
o pai que boceja,
boceja o avô e toda a família
Quase toda: a vó não boceja
Olhos fechados de não ter vontade:
de folhear também,
de sentar também,
comemorar,
bocejar também,
calar até.
Só a vó agarrada ao terço, tesa:
não senta, não reclama, não boceja, não para.
Sua voz conhecida
Voz de ralhar com os filhos, o futebol e a política
Voz de "bem, põe a mesa" pro vô
Voz de "pega mais, tem mais bife, tem outra panela de arroz"
Voz de ensinar a receita do pão
Voz de minha vó
Só sua voz não se altera
Monotônica, nos arrasta ao último amém.

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