Ela abriu o armário, tirou alguns quilos de cadernos que estavam lá e jogou-os na cama, com certa impaciência.
Por alguns segundos pensou em atirá-los ao lixo, fazer milhares de bolinhas de papel, promover uma guerra com aquelas folhas empoeiradas. Mas logo se deu conta que não poderia fazer tal coisa. Como atirar ao lixo anos de sua vida escritos e guardados em letras deliciosamente traçadas por ela mesma? Não suportou a ideia de perder aquelas histórias, aqueles momentos, aqueles sentimentos, e abandonou a intenção de se livrar daquela poeira de letras.
Sentou-se na cama e começou a ler um a um os seus cadernos de cabeceira, cinco anos de sua vida detalhadamente descritos em mais de 900 folhas. Eram tantos poemas, tantas histórias, tantas idéias, desenhos, desabafos. Era como se nos cadernos sua vida pulsasse, eles pediam para ser lidos e ela precisava lê-los.
Enfrentou o arder dos olhos, a tosse e o pesadelo de ter que trocar a roupa de cama coberta de pó, afinal todos os seus pensamentos estavam guardados há anos, encobertos pelas roupas que ostentavam a vaidade em detrimento da necessidade de ler e escrever.
No fim da tarde, após horas desfrutando as palavras de uma garota que às vezes nem reconhecia, descobriu-se apaixonada por si mesma. E, enfim, tomou a decisão.

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