sábado, 23 de julho de 2011

Eu não sei se te amaria nas próximas três vidas, mas se eu puder escolher, com certeza é você que vai estar diluído no meu sangue, correndo pelas minhas veias, alimentando meu coração. Eu queria fazer pra você uma canção infinita pra eu cantarolar tomando banho, estudando literatura, dando comida pros gatos, penteando os cabelos, cantar pra sempre em todos os lugares que eu fosse e te levar dentro da melodia, dentro da minha cabeça, dentro de mim. Às vezes eu acho que você percebe que eu te amo assim na calada da noite, no frio do vento, no balançar das folhas, no canto da cama, por baixo das unhas, na raiz dos cabelos, no rímel, no barulho do ventilador. Eu fico fingindo que ninguém percebeu, vou me divertindo com o você que existe na minha mente. Ainda bem que você não enxerga através dos meus olhos. De vez em quando, eu acho até que não gosto de verdade de você. Mas quando algo dá errado e eu fico nervosa, tudo o que eu quero é despencar e sentir os seus braços me sustentando. Isso não vai acontecer. Eu não vou cair, não vou fraquejar e você não precisa se preocupar comigo. Mas eu me sinto estranha quando não penso em você. Talvez seja o costume com o seu jeito, seu riso, seus defeitos. Conviver comigo é tão difícil e você faz isso tão naturalmente, sem reclamar e sem se dar conta de como tudo funciona bem entre a gente. Sempre achei que você nunca diria não pra mim. Mas eu digo não pra nós. Prefiro ter uma possibilidade perfeita do que uma realidade arruinada. Só quero que esse gostar seja como a canção que eu não fiz pra você, a cantiga infinita e leve, pra cantar pro bebê dormir, pra cantar pra não dormir, pra sonhar com você de olhos fechados e coração aberto.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Vão-se os dedos e os anéis

Era uma menininha linda mas nasceu sem dedos. Nenhum dos 20, totalmente sem dedos. Nas aulas de Biologia ela ouviu dizer que o gene dominante determina a polidactilia, imaginava que os seus dedinhos estavam por aí espalhados em outras mãos. Em seus braços, terminados em mãos sem dedos, sempre brilhavam muitas pulseiras e seu pescoço e orelhas viviam ornados com bijuterias que punham nela. Até para ir à padaria. Era ganhar mais um agrado e ela corria a pedir que alguém a enfeitasse, amarrasse nela os cordões, brincos e pingentes que tanto amava. Na verdade, nunca sentira tristeza pela falta dos dedos até o dia em que, caminhando pela beira do mar, a menina viu um anel abandonado no vaivem das ondas. Não sabia quem tinha perdido aquela joia e nem pensou em procurar o antigo dono, apaixonou-se perdidamente pelo brilho que jamais poderia usar da forma ideal. Usava-o como pingente em colares e pulseiras, às vezes pedia que o prendessem no laço que amarrava-lhe os cabelos, em último caso, carregava a joia no bolso junto com o dinheiro do pão, como um amuleto qualquer que a protegesse. Mas sabia que por melhor que fosse, nunca seria o suficiente. Um dia, na padaria, ela tirou o dinheiro do bolso com muita pressa e derrubou suas moedinhas no chão. Catou todas e pagou o moço. Quando estava chegando no portão de casa foi que lembrou do anel. Procurou no bolso e nada. Correu de volta pra padaria e se pôs de quatro entre as pernas dos clientes, começou a procurar debaixo dos chinelos e balcões, nos cantos da parede, em meio a tanta poeira e unhas sujas. Quase ia desistir quando viu seu anel brilhando na palma de uma mão acima dos tênis verdes e sujos de um senhor que estava na fila. Ela pediu ao dono da mão que colocasse o anel dentro de seu bolso mas logo se arrependeu imaginando o quão vermelhas suas bochechas ficariam durante a cena. Ele devolveu o anel e disse como se chamava, quis saber o nome da menina e falou algo sobre morar perto dali. Ela se despediu e correu pra casa prometendo a si mesma que todos os dias iria se atrasar para comprar o pão. A verdade é que, pela primeira vez, ela quis ver seu anel brilhando nos dedos de alguém.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Você é meu vocativo. É o seu nome que está entre vírgulas quando reclamo, quando declamo minhas estrelas do Sermão da Sexagésima. Eu me declaro para uma plateia sem acento sem ideia sem acento. Fico esperando no silêncio o frio que nunca vem, ouço aplausos. Ninguém enxerga através dos meus olhos, nem o mais sábio dos homens entende por que o mar se esvazia toda vez que eu deixo escapar um sorriso quando te faço alvo dos meus olhares. Eu queria te dizer que tenho medo, mas já nem há onde se afogar e então eu fico a catar conchas. Há namoros que terminam e há namoros que nunca vêm. Há namoros que não existem. E tudo dói. Como é triste espremer da cabeça um poema quando não há nada no coração, coração já não há. Não posso te ver partir porque você não vem. E eu não vou dormir bem enquanto você não me quiser bem. Vou viver acordada, atenta, incomodada. Vivo a guardar beijos que não posso te dar. Pra você eu só tenho este punhado de estrelas repletas de angústia, ordenadas como num mosaico de azulejos, retalhos de sentimentos que eu alinhavei para você.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Mas ainda o amo

Era tanto amor que eu chegava a me sentir fraca, como se amá-lo fosse uma função do meu corpo que consumisse todas as minhas energias. Eu o amava tanto que sentia angústia. Uma angústia e um ciúme tão brutais e sem explicação, uma vontade de ser ele ou prendê-lo a mim. Queria que ele fosse um brinco, um pingente, um presente qualquer que ficasse preso ao meu corpo o tempo todo. Ele era um homem, diferente dos outros, mas ainda assim um homem. A qualquer momento, poderia me abandonar. Era tanto medo de que ele se afastasse que eu nem queria chegar perto. O abraço dele me apavorava por não ser eterno. Quando ele vinha ao meu encontro, eu preferiria ser suas meias a ser o destino de sua caminhada. Eu não queria ser sua namorada, queria ser suas unhas, suas sobrancelhas, suas hemácias, seu DNA. Não podia suportar que outras pessoas o vissem, o tocassem, falassem com ele. Queria que ele não fosse uma pessoa para que pudesse ser meu e somente meu. Um dia eu fui embora. Ele disse "Volta, amor!" e eu não voltei. Eu nunca expliquei o porquê, só sei que não volto. Mas ainda o amo.
 
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