quinta-feira, 21 de julho de 2011

Vão-se os dedos e os anéis

Era uma menininha linda mas nasceu sem dedos. Nenhum dos 20, totalmente sem dedos. Nas aulas de Biologia ela ouviu dizer que o gene dominante determina a polidactilia, imaginava que os seus dedinhos estavam por aí espalhados em outras mãos. Em seus braços, terminados em mãos sem dedos, sempre brilhavam muitas pulseiras e seu pescoço e orelhas viviam ornados com bijuterias que punham nela. Até para ir à padaria. Era ganhar mais um agrado e ela corria a pedir que alguém a enfeitasse, amarrasse nela os cordões, brincos e pingentes que tanto amava. Na verdade, nunca sentira tristeza pela falta dos dedos até o dia em que, caminhando pela beira do mar, a menina viu um anel abandonado no vaivem das ondas. Não sabia quem tinha perdido aquela joia e nem pensou em procurar o antigo dono, apaixonou-se perdidamente pelo brilho que jamais poderia usar da forma ideal. Usava-o como pingente em colares e pulseiras, às vezes pedia que o prendessem no laço que amarrava-lhe os cabelos, em último caso, carregava a joia no bolso junto com o dinheiro do pão, como um amuleto qualquer que a protegesse. Mas sabia que por melhor que fosse, nunca seria o suficiente. Um dia, na padaria, ela tirou o dinheiro do bolso com muita pressa e derrubou suas moedinhas no chão. Catou todas e pagou o moço. Quando estava chegando no portão de casa foi que lembrou do anel. Procurou no bolso e nada. Correu de volta pra padaria e se pôs de quatro entre as pernas dos clientes, começou a procurar debaixo dos chinelos e balcões, nos cantos da parede, em meio a tanta poeira e unhas sujas. Quase ia desistir quando viu seu anel brilhando na palma de uma mão acima dos tênis verdes e sujos de um senhor que estava na fila. Ela pediu ao dono da mão que colocasse o anel dentro de seu bolso mas logo se arrependeu imaginando o quão vermelhas suas bochechas ficariam durante a cena. Ele devolveu o anel e disse como se chamava, quis saber o nome da menina e falou algo sobre morar perto dali. Ela se despediu e correu pra casa prometendo a si mesma que todos os dias iria se atrasar para comprar o pão. A verdade é que, pela primeira vez, ela quis ver seu anel brilhando nos dedos de alguém.

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