segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Discacho

Meu cabelo é um discurso

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Condição humana

A dor é inata
Dentro da gente é um nó
Que não se desata

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Pedalgar

Um homem que é meu
e me leva no cano da bicicleta
Bicicleta que, sem que eu tenha jamais pedalado
ele chama nossa
Bicicleta que ele senta e pedala
e eu sento

Cruzadas pernas
como uma dama de antigamente
num cavalo de antigamente
dessas histórias de antigamente
que eu nunca li e nunca ouvi
mas sei
Só não sei como

Como se estivesse no meu sangue
nascer sabendo sentar assim

Desde a minha avó
Mocinha do agreste em lombo de jumenta ruça
indo pro litoral
onde o mundo é de mar e ninguém passa sede
onde há saliva para beijos de amor

Desde a minha avó
Viúva de guerra
que teve negado um único pedido por seu homem honrado,
que não quis fugir à luta
Cavalga agora em sonho até o fim da vida

Desde a minha avó
Mulata fugida em cavalo roubado
indo pro quilombo
onde há a alegria de não pertencer
senão a Deus e a seu homem

Desde a minha avó
Escrava romana
com seu companheiro fugindo
de povo tão bárbaro quanto eles já foram
indo pra detrás dos muros de quem os capturara

Desde a minha primeira avó
que amou Adão
ou um Homo algumens coisens

Talvez em quando não há cavalo
mas homem há pra cavalgar

Me despeço com um beijo de contos de fadas
e vejo meu homem
com suas esporas cavalgar
a bicicleta de prata crina e cauda

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Remoto controle

Vamo largar esse negócio
de conta em banco, cartão
Esse papo de gente grande
Traz o lençol e edredon
Traz os gatos
e os cachorros, se tiverem banho tomado
Vamo viver nesse sofá e ligar a televisão
Deixa o controle em minha mão
A gente assiste qualquer coisa
que não seja propaganda política
ou tiroteio e gente morta
Liga em algum programa incapaz de causar revolta
Tem suco e refrigerante,
mas nem traz que vai ficar quente
Melhor água natural,
chá na temperatura ambiente
Café na garrafa térmica e leite só pra pingar
Tem biscoito
Tem sorvete, deixa derreter que eu gosto
A gente pula o almoço
Sobremesa é a comida do rei,
quando a gente é criança
Traz as frutas que eu já lavei
E o lixo pra jogar as cascas?
E a gente sujando o lençol?
E o controle remoto, cadê?
Ficou embaixo de você embaixo de mim,
ou embaixo de mim embaixo de você
Passa a mão procurando
pelas minhas pernas
Você me belisca
e eu te belisco
De belisco em belisco, adivinha...
A gente perde o controle.

Terço da vó

Moletons
Chinelos e meias grossas enfiadas entre o dedão pra calçar
Joelhos no chão

Olhos fechados de não ver:
o vô folheando a revista,
a mãe sentando nos calcanhares,
a mãe comemora a cada mistério que passa,
o pai que boceja,
boceja o avô e toda a família
Quase toda: a vó não boceja

Olhos fechados de não ter vontade:
de folhear também,
de sentar também,
comemorar,
bocejar também,
calar até.

Só a vó agarrada ao terço, tesa:
não senta, não reclama, não boceja, não para.
Sua voz conhecida
Voz de ralhar com os filhos, o futebol e a política
Voz de "bem, põe a mesa" pro vô
Voz de "pega mais, tem mais bife, tem outra panela de arroz"
Voz de ensinar a receita do pão
Voz de minha vó

Só sua voz não se altera
Monotônica, nos arrasta ao último amém.

Fecunda

A poesia me fecunda
Na amarga alegria
doce angústia
de gerar poemas
Nascem de mim infinitos versos

Imitação

E o povo agora vive assim. Fazendo da via de mão dupla uma via de mão nenhuma em que a pista é coberta por carros sem gasolina parados numa sinaleira por onde ninguém vai atravessar. Esses beijos na boca de um alguém que não se sabe. Que nem dar tapa na cara de um manequim de vitrine, a mão que bate é só o que dói. Mas isso ela não tinha nunca feito. Ele, vai saber... Vai ver até tinha. Mas ela não. Na hora ali ela achou que era normal e voou os beiços pro abraço dos dele. E ficou ali pousada, uma boca no colo da outra. Ela afastou um punhado e ele apressou a mão num encontro com a nuca dela, acomodando o bocado de dedos naqueles fios de cabelo. Mas a menina queria que queria abraçar o olhar nos olhos dele e se riu soltando o laço de dedos e nuca e cabelos e mão e fios e bocado. Foi como parar de rir pra tirar uma foto do riso. Como esquecer que mesmo no somar do tanto de foto que já fizeram não cabe a luz toda da lua. E foi no desatar do beijo que a menina tatuou a presença dele no sentimento dela. E no abrir de olhos e separar de corpos - andando de frente um pro outro, cada um pra sua trás, sorriram do que aconteceu e do que teria sido se o beijo não fosse cópia de cópia de cópia, imitação de amor.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Fratura exposta

I

A gente acorda cedo
A gente sai de casa
A gente ganha um beijo
A gente bate a porta
A gente diz que volta
A gente vai em frente

A gente só é gente
Por causa do dinheiro
Que alimenta a gente

Por causa do dinheiro
Ele comprou a moto
Pra trabalhar à noite
Além do outro emprego
Ele entrega comida
Pra quem quer ter sossego
Eu fico na cozinha
Ele ama meu tempero
Fico em casa sozinha
Esperando ele voltar

II

O telefone toca
Eu acho que é meu nego
"Alô!" É o bombeiro
Eu fecho a casa e corro
Pro local do acidente

A equipe de socorro
Me diz para ser forte
Eu fico olhando a morte
Que levou meu amor

A boca que me beija
Colada no asfalto
O sangue que fervia
Ao sentir o meu toque
O sangue que irrigava
O coração pulsante
Que me amava tanto
O sangue transbordado
Atrapalhando o trânsito

O homem que me amava
É só fratura exposta


terça-feira, 5 de junho de 2012

Contecido de telefonema perturbador de lembrada ferida

I

Alô, eu reconheci a voz mas não quis dizer seu nome que eu rabisquei da agenda por pura dó de rasgar. Como a vida tá, você perguntou. A vida té boa mas anda vazia. Deu foi alegria maginar sua vida parada que nem que a minha. Eu me empaquei nas lembrança do que fomo, apaixonada no que teria sido. Hoje em dia sinto falta té do seus grito. Quando dava errado tudo e você me olhava como que sabendo a culpa que eu nem tinha mas sem saber sua a culpa que não era minha.

II

Um dia frio e feio, bolo de fubá no fogo. Da chuva cê chegou molhado, pisou barro no tapete de minha mãe. Eu corri a lavar que sem isso nós já não tinha agrado lá em casa, magina se nós se estraga um tapete. Sabia que cê tem os olho mais bonito que eu já vi, jura, juro. Sempre eu queria que cê jurava, sempre cê jurou. Chegou painho, mainha, os mano. O sol sumiu foi logo assim que eu pus a mesa. No que a fumaça do bolo subia ia parecendo mais que tudo era feliz e as gente até se gostava. Cê proveitou que eu cortava cortadinho os teco de bolo e foi dizer pra painho o que eu já sabia mas fiz de conta que nem tava ouvindo. Ô gostaria co senhor desse as mão da filha do senhor pra eu. Os moleque, cara feia de cinhume de irmão. Mainha não fez que sim nem fez que não. Painho perguntou, ocês se gosta. Nós disse que sim, pai não reclamou. Foi no portão que eu perguntei, gostou do bolo. De resposta, nunca comi bolo tão bom. Cê disse que era fome e eu chamava de amor.

III

Cê me levou um dia na vila qui perto dizendo conhecia o povo todim. Disse bastarde pra gente da pracinha mas pra casa dos parente não certava o caminho. Vamo voltar, eu disse. Da tarde já era o fim e o sol adeus. A passagem pra casa sua tia ia dar pra nós depois do café. Pois. Não tinha casa mas tinha fome. Cansaço não enche barriga vazia. Nem dava pra comer o que tinha porque só o que tinha era não ter nada. Eu rezava rezando baixinho colhidinha no banquinho. Mulher minha não drome ne banco de praça. Causo que eu nem era mulher sua, e painho matava os dois se o sol entrava em casa antes que nós. O caminho era mais comprido que breu. Eu danei a chorar e cê me gritava, deixe de esperneio. A sandalinha me rebentou os pé de tanto andar.

IV

Hoje em dia sinto falta té do seus grito. E se a gente tivesse junto ein, quase falei. E o vestido de noiva, cê queria saber. Perguntou onde ele tava, perguntou se comprei onde, perguntou pra me contar que você ia se casar. Eu disse que nem sabia depois fiz que me alembrava e disse da costureira se cê quisesse outro ou igual. Eu quero ingualzim, cê falou malvado. E mais mau ainda me disse da noiva, que se chamava sei como e trabalhava sei onde e era filha de sei quem. Menti bolo no fogo e deliguei telefone. Chorei tal e qual trovoada nas bochecha e no queixo. Cuspi beijo por beijo, fiz que me sufocava, gasguei com o desgosto maior que cê me deu. Palma no portão, meu noivo chegava. Fingi doença, pedi dele pra me ver depois damanhã. Ele creditou na minha cara sofrida e de bicicretinha voltou donde veio.

V

Daquela mulher eu alembro. Uns olho morto de fome, pede buquê já no dia da janta de noivado. Dois cambitinho de perna, um traseiro enorme assim. Meu vestido não dá nela, por que cê ligou pra mim. Me fazer de bestalhada, por quê. Cê nem sabe que nos afago de meu marido vou sempre procurar seus calo. Esfregar na minha cara que trocou vida comigo por vida com umazinha que nem remenda os vestido, que nem faz bolo nem pão, que nem o nome escreve. Ela bem que podia não se aparecer na igreja que nem que cê fez, se lembra.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Abstração

A realidade é passagem por outridade. Pelo tato, pelo cheiro, os olhares e os ouvidos é que existe o tudo. Uma cadeira é só cadeira por ser sentada, e pode ainda ser escada, mesa, parede, obstáculo.
O coração é uma ferida imposta em nosso dentro. Se se foge à intensidade de costume de toque na carne etérea faz sensível o que já é, em essência, dor. Uma chaga na pele, mesmo que no avesso, cumpre-se na sensação de desgracência por forçá-la ao nulo dos sentidos. A quantidade de dor suportada serve fazer medida de contentamento pela ausência. Por se carregar um quilo de sofrimento, sente-se um quilo de satisfação na não-carregância.
Como balança e areia trocando de prato, a verdade cardíaca é o contato. Toda existência se define pelo uso. O coração é mágoa-bundo. Se não dói, diz-se que nunca existiu.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Poética da coceira

Encontrar o ponto exato da coceira

Esfregar:
com a ponta dos dedos - enquanto for possível
controlar a vontade
saciá-la
com movimentos circulares de carícia
passeio dos dedos pelo alvo da pele
Esfregar:
com as unhas - mesmo que machuque
quando as epidermes não se satisfazem
apelar pra precisão das garras rígidas

Esfregar até manchar vermelho a pele
Esfregar até arrancar tiras de leve
Esfregar até brotar finos de sangue
Esfregar até que a coceira passe
Esperar que a coceira deixe marcas

A depender da intensidade com que a sensação te impera
Talvez as marcas não sumam jamais
Como você é lindo!
Como se eu mesma o tivesse parido
Ou como se você nem tivesse nascido
e fosse não mais que um anjo
Sua cabeça ironicamente
enfeitada de cachos - espirais europeias
Giram perfeitas sem redemoinhos

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Cansaço
: em que não cabe
a vontade de
Conversa
: em que a palavra
é mais que abraço em um
Contato
: em que a ação
importa mais que a
Companhia
: em que uma presença
é para a outra
Colo
: em que a existência
se desgarra do
Cansaço

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Desaflorar

Há quantos anos se conheciam?
Dois talvez, talvez três
Até três ela contaria
Quando sentiu aqueles olhos verdes em seus enormes olhos despreparados
E no 'dois' ele queimou a largada, queimou de timidez as bochechas da mocinha, ferveu a corrente sanguínea, cozinhou os órgãos dentro do corpo conhecido e nunca antes habitado

Ela quis que fosse em maio
Mas em maio não há flores
A primavera chega tarde nas casas em que o telhado é a linha do Equador
E chega devorando os dias, aflorando carências e desflorando as almas: exibindo as lacunas de afeto preenchidas com flores de plástico
Ela quis que fosse em setembro
Setembro chove? Chove em abril
Abriu a boca, os braços e pernas
Fechou os olhos
E arfava pois não podia florir

terça-feira, 10 de abril de 2012

Te trago nos dentes

Encaixado entre os molares, enfiado na gengiva
Rasgando
Não sei se incomoda, só sinto
Te sinto o tempo todo em minha boca
Vivendo no cenário de minha dentição
É tão presente, tão real sua existência
Que eu mostro os dentes
E ando pela cidade distribuindo sorrisos

segunda-feira, 2 de abril de 2012

De dor

De tédio, digo-me triste
De cansaço, triste
Fome, triste - e chego mesmo a chorar a fome, tal um bebê
Mas de tristeza não sinto dor
Essa doença que provoca enjoos e cólicas, febre
Isso que é de fato um caso clínico para os mais sensíveis corações despedaçabandonados
De tristeza, sinto poesia

sábado, 31 de março de 2012

Passo

Meu pé rachado
Meu casco
Meu pé imundo
Já passou por tanto chão
Por tanto beco escuro
Por tanta perturbação
Por tanto topo de muro
Por tanta atribulação
Por tanto asfalto duro
Por tanta humilhação
Por tantos anos de vida
Por tanta ponte insegura
Portanto minha sola é tinta
Minha pegada é pintura
Meu rastro é palco
Meu mancar é dança
Minha vida é nuança
Do muito que eu sou

O cheiro

O cheiro do seu perfume
misturado ao suor de nossos beijos
Ainda me lembro
mesmo sem querer
mesmo sem gostar
Respirei fundo e senti
as lembranças
imagens de olhos fechados
sons de ouvidos atentos
um arrepio - talvez de nojo
talvez de medo
Mais um segredo
Em cada curva
o cheiro se jogava sobre mim
Grudava como se você mesmo pesasse sobre meu corpo
ou me segurasse no colo
com suas mãos
pousadas sobre meu quadril sobre você sobre o sofá
Eu preferiria nem lembrar
eu preferiria nem ter vivido
Como eu queria não me arrepender

segunda-feira, 26 de março de 2012

Pra ninguém ler

Cinza.
Como o céu de abril e suas nuvens de chuva grossa, como o pelo de um gato de rua.

Busco as minhas mágoas nos versos que leio.
Busco um pouco de mim nos seus versos também.
Um fio de cabelo, um suspiro, uma lasca de unha, uma marca de rímel,
uma palavra ambígua, um cheiro bom, um olhar, uma insinuação,
um reflexo de óculos, uma marca de pé, uma cicatriz

Qualquer coisa que eu tenha esquecido,
Qualquer coisa que você tenha lembrado

Busco em todos os poemas do mundo as palavras precisas
Palavras necessárias
Palavras pra me expressar, pra me escrever, pra ninguém ler

Pura melancolia, pura preguiça

Eu não sei nada, não sou nada, não faço nada, não falo nada.

Não sei nadar no seu sangue e me instalar no seu coração
E nem soube criar uma metáfora que ilustrasse a minha incapacidade de amar e ser feliz.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Uma lacuna

Eu acho que você está ao meu lado - mas não está
Eu não te busco
Não estou em você nem mesmo por um segundo, um mililitro, uma polegada

Eu não sou nem faísca no seu olhar
Eu não sou nem pó na sua pegada
Eu não sou nem penugem no seu vôo
E eu não sei voar

Talvez fosse melhor te conhecer em outra vida
Você me dá vontade de não viver mais

terça-feira, 13 de março de 2012

Quero que você me veja e
quero que você me goste
Quero que você, de longe,
me aponte e diga "é meu"

Uso capião, usucapião

Venha aqui e tome posse

sábado, 10 de março de 2012

Mil e noventa e seis dias

Há um pouco de você em cada verso
em quase todos

Sua ausência eterniza
sua existência todos os dias em minha solidão

É te amar sem atrito
amar no silêncio
calar

É uma polpa de frutas
dissolvida na caixa dágua
É um suco tão fraco, tão com gosto de nada

Eu que quis que você fosse um sinal na minha pele
ou um pé de jambo no meu quintal
Pra te ter, te plantar
te esconder, te regar
te coçar, te colher
te lavar, te comer

Ontem eu mal pensei em você
Algum tempo passou, o menino cresceu
Ele aprendeu a amar
A professora não fui eu

O menino passou

Esconjuro

Se não me der coragem de te trazer pra perto
Amaldiçoo até o teu tataraneto
Desejo a teus amores um estrago certo
Te faço engravidar uma mulher sem teto
Caso com Roberto, Humberto, Gilberto
Mas me proíbo de implorar por teu afeto
Portanto, meu querido, seja mais esperto
O meu coração já anda inquieto
De guardar tanto amor que não oferto
Rasgava-lhe as coxas, abria-lhe as costas, sangrava-lhe as carnes, marcava-lhe a cara.
Mordia, unhava, lambia, apertava. E com carícias violentas prendia-lhe o coração à própria alma.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O silêncio

Ela havia bebido duas xícaras de café e comido tantos biscoitinhos amanteigados que seria catastrófico contar. Sendo uma mulher vaidosa, com certeza calcularia as calorias de cada molécula de amido e glicose ingeridos. Ele não dissera uma só palavra. Comera alguns pães, mais fielmente descritos como invólucros de manteiga considerando a abundância com que eram recheados, mas nem tocara na xícara de café com leite, que àquela altura já deveria ter esfriado. Após cada mordida, o marido mastigava olhando para os talheres, as cadeiras, o tapete e os chinelos largados em frente à porta de entrada. Não encarava a mulher. No entanto, dir-se-ia que ela tentava invadir-lhe os pensamentos mirando fixamente a fronte relaxada do homem de quase sessenta anos.

Hilda ouviu o ranger da porta e sua batida, seguida do barulho metálico produzido pelo molho de chaves ao girar trancando a fechadura. Esperava que o marido fosse até a cozinha procurá-la, pois avisara a ele pela manhã que chegaria mais cedo do trabalho, mas a espera foi interrompida pelo som do chuveiro. Logo, Ivan estava cantando a plenos pulmões durante o banho e Hilda preparou a mesa perguntando-se que motivo levara o marido a ir direto para o banheiro sem dar pela sua presença ou avisar-lhe a chegada.

O silêncio intrigara Hilda.

Ela o esperava na sala de jantar. Ivan conservava uma expressão despreocupada quando se sentou à mesa. Hilda encarara o marido à espera de uma explicação, mas ele apenas meneou a cabeça cumprimentando-a enquanto enchia de leite uma xícara.

Hilda não desviou dele o olhar e comia distraidamente, absorta em seus pensamentos. Desde que se conheceram, ela não lembrava um dia sequer em que não houvesse pensado em Ivan. Quando o viu pela primeira vez, entrando timidamente na farmácia que a família de Hilda administrava há muitas gerações, já tinha certeza que se casaria com aquele moço magro, de rosto pálido e bochechas fundas. “Meu cachorro sente dor e a doutora pediu que lhe desse uma injeção”, dissera o rapaz. Hilda, após ter explicado que não trabalhavam com esse tipo de medicamento e, enternecida pelo nervosismo do moço, abandonou o balcão aos cuidados do irmão caçula e acompanhou o desconhecido até a casa de rações mais próxima. Desde então não passaram mais de uma semana sem se falar e nenhum outro homem foi capaz de ocupar a mente de Hilda. Ivan sempre fora onipresente. Não entendia, portanto, por que era castigada com aquele silêncio. Dentre as coisas que censurava no marido, estavam esse silêncio e o olhar desanimado que ele pousava sobre os móveis da casa como que arrependido da vida em comum que construíra. Ivan tinha mesmo um ar de quem estava de passagem pela vida e Hilda admirava-se de vê-lo de raízes fincadas ao seu lado.

Não fosse pela mulher, eles certamente não teriam se casado no religioso e nem mesmo no civil. Ivan sempre afirmara que o casamento acontecia entre o casal sem necessidade de ser celebrado por amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos. Ele não se sentiria menos casado se tivesse apenas arrumado as malas e se mudado para a casa de Hilda em um dia qualquer. Mas, para a mulher, seria “um absurdo não festejar tal passo desperdiçando a felicidade proveniente da decisão, talvez a mais importante da vida de uma pessoa”. Ela nem era religiosa, mas fizera questão de entrar na igreja de vestido branco conduzida pelo pai até o altar, onde Ivan a esperava.

Questionava-se agora se ele não casara apenas por agradá-la. Talvez, por um capricho de menina, ela estivesse arrastando Ivan pela vida contra a vontade dele. Quem sabe ele a amasse mais caso pudesse decidir livremente entre ficar e partir, sem ter que assinar papéis ou dar satisfações a juízes e testemunhas. Certamente ele pensava na vida que poderia levar sem estar preso à sua companhia quando corria o olhar vazio pelos objetos da casa.

Pelo modo como chegara e passara toda a refeição sem dizer palavra, a mulher calculava que Ivan pediria o divórcio dentro em pouco. Se não pedira ainda era por pura inércia. Os homens, Hilda pensava, eram tão acomodados a ponto de viver anos ao lado de uma pessoa sem amá-la, apenas pela praticidade da vida a dois. O que a levava à questão: o que motivara Ivan a abandoná-la? Apenas uma razão muito forte poderia impulsionar uma decisão tão radical a essa altura da vida. Sem sombra de dúvidas ele se apaixonara. A essa conclusão, um fio de lágrimas ameaçou pousar nos olhos de Hilda.

Ela não baixou a cabeça e continuava olhando para aquele homem que há mais de trinta anos fizera morada de seu coração. Às vezes lamentava amá-lo, mas jamais pensara em arrancá-lo de sua vida. Prezava a companhia e os modos do marido. Em décadas de casamento, sempre contornara as explosões do temperamento da esposa e Hilda não saberia mencionar uma só vez em que ele perdera a razão. Ivan não reparava cortes de cabelo, não lembrava datas especiais e não trouxera flores para casa no dia dos namorados mais que três vezes. No entanto, Hilda nunca precisara escolher acreditar na mentira mais conveniente do marido. Ivan não tinha inclinação a meias-verdades, era tão sincero que beirava a ingenuidade. Como então conseguira esconder a insatisfação conjugal, perguntava-se Hilda.

Atormentada por seus pensamentos, parou de comer e se levantou repentinamente. Ivan olhou-a, finalmente, e sorriu.

- Ontem você estava muito contente sem nenhum motivo especial, então é normal estar assim hoje, não é? Vamos ver como acordará amanhã a minha linda esposa cujo humor segue a variação das marés. Dê-me um abraço, Hildinha. Estranhei que você não tenha trocado palavra desde que cheguei, não és como eu, gostas muito de falar. À propósito, não sabia que você chegaria mais cedo. Você avisou e eu me esqueci? Ah, essa minha cabeça de velho...

E Hilda estancou com um beijo o palavrório tão esperado que escapava à boca de Ivan.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Figurante

Na cena de dois segundos que me deram no seu filme, ninguém reparou meu rímel que eu passei e repassei. Ninguém viu o delineador que era marrom, não era preto. Ninguém reparou meu cabelo há mais de um mês sem pintar. Meu óculos arranhado e minhas unhas roídas, ninguém viu o meu sapato, nem se era sapatilha. Mas eu tava de chinelo na varanda, na janela, lá no alto de um prédio sorrindo abestalhada. Antes de começar o filme eu estava entediada, mas você entrou em cena e minha cara amassada pela palma da mão esquerda de repente se ergueu. Quase que eu me jogava lá embaixo, na avenida, enquanto você passava. Você pulava, eu pulava, mas minha cena foi curta. Mal deu pra ver se era curta também a minha saia ou short ou vestido. Mas eu tava de macacão, na verdade, macaquinho. Você nem viu que era verde, ainda tinha um lacinho num dos lados do decote. No esquerdo ou no direito? Eu confundo no espelho. E o tempo foi tão pequeno que nem mesmo meu joelho, todo ralado e dolorido você pode reparar. Talvez eu esteja errada, mas não acho que você vá lembrar que uma hora olhou pra cima dentro dos olhos de uma menina abobalhada no apartamento. A vida toda vai passar e eu vou lembrar esse momento. Você não guardou na memória, então nem pode esquecer. Você foi atrás do trio e eu não fui atrás de você.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Quero encher de poesia essa tarde vazia.
Mas não tenho nada além de rimas pobres e um corpo cansado de não amar.
Me chame de Inha, que eu sei que sou minha mas você pode fingir que sou sua.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Repleta

Não quero ver ninguém: estou cheia de poesia
Por cheia digo inteira, repleta, não-vazia
Às vezes escrevo Lauro e leio louco
Vivo encontrando rimas, mas me esforço tão pouco
As mágoas expulsam poemas do meu coração
E eu escrevo sem pausa, sem correção, sem pudor, sem pontuação, sem raiva, sem compaixão, sem medo, sem emoção, sem tempo, sem ocasião, sem métrica, sem paixão, sem destino, sem vocação, sem remetente, sem direção
Cuspo e vomito a poesia do momento
Mesmo sem ter sentido nenhum sentimento

Poentes

O sol que pinta meus cabelos e alaranjeia a minha vida sempre tão cinzenta
Consigo vê-lo, por pouco não posso encará-lo. Meus olhos já não ardem quando olho de soslaio.
Mas vendo esta folha e a caneta que escrevo, minhas unhas cor-de-rosa nos meus dedos dois anéis
E meus cabelos ventando na minha cara. Brilham ouro cobre. Nada brilha mais que este momento
O sol sumindo por detrás de um telhado tão laranja quanto eu e o gosto de meus lábios
Encaro, serena, minhas verdades. O sol vai se afastando mas eu já estou dourada, iluminada, mais por dentro que por fora. Comigo carrego sem mágoas meus erros: as consequências de mim
Antes erros que erres de arrependimento. Laranjas são meus defeitos poentes dentro de mim.

Este sol

Este sol às seis horas da tarde
Na verdade, já passa das seis e meia
Eles mudaram o relógio
Se não tivessem mudado ainda não seria seis
Eu não estaria atrasada
Se essa hora não me houvesse sido roubada, eu chegaria a tempo
Quem sabe até visse quem eu quis ver
Como a placa do carro disse:

Zero zero, hoje verei quem eu quero
Mas eu não vi ninguém
Hoje estou até muito bonita e ninguém viu

O ano ainda tem oito dias, esse mês demorar de passar
Mas não há problema, é verão
No verão não há problemas
O sol de agora parece mais vento que sol
É um sol de noite e me acaricia as pernas

É amor que não arde
Mas também não dura
Nem sei se é amor

Esta data, esta mágoa, este sol
Meu coração está repleto
Talvez alguém desconfie mas ninguém vai saber
Eu mesma não vou lembrar
Rimar fim com mim
não está com nada
Quero ver rimar queijo e goiabada

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Defeitos

Ele disse que alguém anda fazendo poesia
pra menina, pra vê-la sorrir
Eu acredito que a poesia é a melhor forma de ganhar o dia
ou um coração

Só não acho justo que o sol brilhe lá fora
e a menina ganhe poesias de quem ignora todos os seus defeitos

À primeira vista toda mulher é perfeita
Sem dor ou expectativa, sem frustrações

Quero ver fazer poema das espinhas na cara, da depilação mal feita, da pele descascada

Quero ver sol majestoso me acordando às cinco horas
Asas da imaginação numa fantasia erótica

Quero ver alguém dizer
"quero te comer, meu bem"
A poesia do dia a dia não faz mal a ninguém

Dentro de mim

Você é como um poema que há anos me habita.
É uma poesia que nem precisa ser escrita.
Cochilei nas palavras de alguém mas acordei no silêncio e o vazio na barriga. Meus braços tremiam e eu sabia que mal conseguiria segurar um lápis. Sentei no escuro, rolei na cama, dei cambalhotas com a mente vazia mas abri os olhos e lembrei de você. Como você é lindo! Você é tão verdadeiro e a sua verdade me toca em cheio, faz parte de mim. Acho tão bonito que você entregue os defeitos que muitos esconderiam, a sua franqueza e sua falta de "malas intenciones", não foram o que te trouxeram, mas o que te prenderam na minha vida. Agora, com a luz acesa deixo as palavras escorrerem da caneta segura em minha mão pelo papel fino desse caderno que eu comprei em sua companhia. Mentalmente te desenho no futuro que vou imaginando, e onde teço alegria vou te bordando pois te quero costurado em mim.
Eu não acredito em amor à primeira vista ou amor eterno, apesar de meus pais se amarem pra sempre desde o primeiro olhar. O engraçado é que eu te amo. Desde a primeira vez que te vi, eu já sabia. Eu não quero que você saia da minha vida porque não vai sair do meu coração. E eu sinto que, de alguma forma, agora eu garanto.
Eu sei que é amor pela dor de facada que eu sinto nas costas toda vez que te vejo, que me faz empertigar toda na cadeira, na poltrona, no sofá, ou no chão gelado da sala onde eu sento e deito e rolo na poeira com a mente voando toda atravessada por lembranças suas, pensamentos meus sobre besteiras entre nós dois.
 
temas blogspot - mario jogos