quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

você não me ama não me quer nunca quis como posso ser feliz enquanto outros braços te envolvem enquanto palavras de tantos alguéns desimportantes valem mais que meus carinhos você não me merece e nem pretendia eu não sei como vai ser agora se a vida nos afasta e a gente colabora você não se interessa por nada que eu digo você não esperaria um minuto por mim eu sempre achei pouco o que você me dava mas agora é nada lama poeira e pó é pouco é menos é nada você não me ama mas eu lembro tanto de você ter dito que me amava só essa lembrança já me alegrava hoje nada é real nada é verdade você não me ama e eu repito isso para que você veja e diga que estou errada
Ele disse que me ama
Disse que me amava

Ele nem me abraça mais

Talvez eu exagere
Ando boba e fraca
Mas creio que ele seja incapaz de me amar
Ele não me ama, ele não me ama
Minha voz me repete, me tortura e mata
Ele bate a porta e some por dias
Ele traz pra casa um colar de esmeralda
Ele diz que a comida está ruim
Mas limpa o prato ainda assim. E arrota.

Ele não me ama, ele não me ama
Minha voz me alerta e me apavora
Ele sorri para todas as visitas
Ele vê meu riso e me ignora
Mas ele percebe minhas tentativas
Insisto em ser a mulher que ele nunca quis

Ele não entende quando eu choro
Vou fingir todos os dias que sou feliz

Ame me ame

Não me desame
Não me desalme
Não me desarme
Não me alarme
Não me alerte

Me aperte
Não me aparte
Não me afaste de você

Não me desalente
Não desatente de me amar

E me deseje: uma boa sorte
Me deseje a morte
Mas me deseje

Me deseje agora
Me deseja já
Me deseje na sua mesa de jantar

Deseje me amar

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Frio e feio dia

Os carros que passam
As moças que passam
A vida que passa ligeira

O rapaz sentado no banco fala como se quisesse marcar território com as ondas sonoras de sua voz
Como há apenas moças nos bancos - e uma mesmo ao seu lado -
a voz viaja no ar como braços segurando tudo e dizendo "é meu"

Dessa forma, a mulher lendo o livro,
as moçoilas de sombrinha,
as flores vermelhas,
as pedras da calçada,
somos todas obrigadas a ouvir as baboseiras que ele diz para prender a atenção da mocinha com quem divide o banco
Eles riem, ela fala também. E ele pode, enfim, baixar a voz.

Toc toc toc toc - "toc" faz o sapatinho da loirinha apressada que vai enfrentar a chuva que me prende aqui.
Um choro calmo e lento
As lágrimas escorrendo
E a mágoa não sai toda de uma vez só

Amoração

Casei de branco e adotei três filhos:
cada um com um nome, um signo e uma cor.

Ernesto, amarelo, de olhinhos puxados,
foi morar com outro ariano que era seu namorado.

Valentina, negra, signo de libra,
foi dançar nos palcos de um país gelado.

Alfredo, branco e sardento, moço leonino,
casou com uma moça que já foi menino.

Quando nosso último filho bateu a porta e não voltou
Foi então, meu querido, que você me adotou
Queria ser cada pessoa que passa por sua rua. A mãe de família com uma saia rosa e duas sacolas de mercado nas mãos, o cachorro abandonado que já foi branco e hoje é marrom, o cara de camisa verde com as alças da mochila marcadas de suor nos ombros. Talvez você me amasse em um desses corpos que passam por aí. E quando a mulher entrasse em casa, o cachorro saísse correndo e o cara dobrasse a esquina, eu seria outro alguém pra passar minha vida debaixo de sua janela.

Amargo

O gosto amargo do suco de limão que você fez antes de ir embora e eu tomei com chumbinho pra virar um ratinho caída no chão da cozinha com a cara virada e os olhos abertos vendo debaixo da geladeira toda aquela sujeira que estragou nosso amor.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Sambarregue

Depois de anos de serviços prestados, meu coração tá aposentado. Foi tanta mágoa que carreguei, meu amor, achei que estava quitado com a dor.
Meu sofrimento é financiado, tenho que gastar a aposentadoria. Mas, de sentimento, ganho mixaria e pago à vida sofrendo calado.

domingo, 13 de novembro de 2011

Eu não sei se você lê, mas tudo isso é pra você. Todo tempo que eu perdi fingindo que você era meu e que eu era seu brinquedo, seu presente, seu troféu. Eu não sei se você vê o que eu vejo em você. Acho que afastado eu te vejo até melhor.

Mas quero os seus olhos postos em mim, brilhando em mim, decorando os meus pedaços que você pode querer, pode pedir, pode comer, pode dizer que é tudo seu. Eu sou seu. Não por completo, talvez nem muito, talvez eu só queira brincar. Brincar que o mundo é nossa casa e que você é minha família e eu vou ser a sua avó, o seu cachorro, a sua filha, o seu marido e seu jardim. Você gostaria de mim se eu fosse a terra onde você planta suas flores, se eu fosse o vento que balança os galhos no seu quintal?

Eu quero ser a fronha que você afoga com as lágrimas dolorosas que teima em esconder. Eu quero ser o cadarço que você amarra e cuida pra que nunca se solte de você. Eu quero ser você, eu quero ter você, eu quero ver você todos os dias o dia inteiro.

Olha pra mim, olha e busca meu olhar. Segura o meu queixo pra eu não desviar, me faz enxergar o que você guarda aí dentro porque eu quero tanto que você me dê o todo ou um pedaço de você.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Farinha no suco.
Açúcar no prato.
Eu tô de pires na mão,
implorando, gato:
Você na minha cama
e o quarto trancado.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Como era mesmo o poema que eu pensei no corredor?
A tia doidinha, minha sapatilha...
Era de alegria, não era de amor
A tia doidinha me parou no corredor.

E o poema de Drummond que há pouco eu lia?
A boca sozinha, a boca vazia:
Eu lia o poema ou ele me lia?

Boca: nunca te beijarei
Boca de outro- de tantos, de quem?-
que ris de mim- sem me sorrir um bom dia.
No milímetro que nos separa - no milímetro que há entre nós,
neste milímetro- cabem mil palavras.
E depois que eu fizer tudo pra você gostar de mim
Você não vai

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Panos e pedras

Eu gosto de alfarrábios
E gosto de neologismos
Sou uma neolexicista, sou uma tecelã
Caso morfemas, invento
Mas você não se impressiona
Você gosta de palavras, só não gosta de mim

Vou abrir um dicionário e mergulhar em seus vocábulos
Escolher o mais lindo, pensar em você
Vou ser ourives, vou polir uma jóia de antiquário
E vou lhe presentear com seu significado

Você vai guardar meu termo
Não na estante para que vejam
No armário para esquecer
E um dia um alguém qualquer – ourives nem tecelão
Vai abrir seu armário, ver meu presente e se apaixonar
Não é preciso muita sensibilidade pra admirar uma jóia

E você vai entregá-la como se não importasse
Depois ele vai lhe dar um presente também
Você vai guardar
Talvez até na estante
Qualquer presente te leva pra longe de mim

Mas nada me importa mais que uma jóia ou um tecido
Toda vez que você vai, eu te perco para sempre
Mas o sempre sempre volta
E eu te perco novamente
Meu amor é diferente, eu nem sei te explicar
Quando a gente se encontra
Ele vai se camuflar
Eu encontro mil desculpas, mil defeitos em você
Mas se você vai embora
Ele torna a aparecer
E depois de todo esse tempo
A gente se olha sem se ver
E, se se vê, não se enxerga
Eu, que morria de amores por você
Passo por seus olhos, vejo como cega
E você, que deixou escapar o momento
No meu pensamento agora não mora
Seu sentimento veio tarde demais
Hoje, em muda concordância
A gente se ignora

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O cânone, terceira parte

Passo os olhos e vejo formiguinhas coladas no papel.
Pedras, o sertão de João Cabral de Melo Neto
A pátria de Vinicius, que é pátria minha também
A cidade de Gullar fundada em 1612 e suas coisas azuis
Fechos os olhos e nos vejo.
Vejo minhas pernas sobre suas pernas e nossas palavras se entrelaçando no ar interpretando os poemas que lemos. Interpretando. Todo esse amor nós não vivemos: interpretamos.
Os seus olhos brilham mas sou eu que choro.
Abro meus olhos e não te vejo.
Você não está, você nunca está, você nunca esteve.
Uma caneta, urgentemente. Antes que a imagem saia da minha mente.
Escrevo.
Baixo meus olhos, vejo seus pés e eles não vêm em minha direção.

domingo, 7 de agosto de 2011

Imagine você e eu

Eu sou a salvação da tua lavoura
Você pra mim é banho de salmoura
Você é truco e eu sou a manilha
Você é trenó e eu sou a matilha
Você é chuva e eu sou o mendigo
Eu sou o piercing, você é umbigo
Você é 7 pragas e eu, Egito
Eu sou África você é navio negreiro
Você é Grécia, eu sou filosofia
Eu sou Calvino, você é a burguesia
Você é trans, eu sou a cirurgia
Eu sou um urso e você é mel
Eu sou um ímã, você é papel
Eu sou a mão, você é água viva
Eu sou trilho, você é locomotiva
Eu sou xarope, você é veneno
Você é raiva, eu sou o palavrão
Eu sou ciúme, você é paixão
Você é a camisa, eu sou o botão
Você é careca e eu sou o chapéu
Eu sou criança, você é carrossel
Eu sou um ponto de exclamação
Você é sinal de interrogação
Eu sou metrô, você é Salvador
Você é rei e eu sou a coroa
Você é D. João, eu sou Lisboa
Eu sou Brasil, você é Carlota Joaquina
Eu sou janela, você é a cortina
Você é a chave, eu sou o cadeado
Eu sou o nó, você é o cadarço
Você é cintura, eu sou o abraço
Eu sou a cura da sua doença
Você é a dor da minha cabeça
Eu sou a Terra, você é efeito estufa
Você é quermesse, eu sou bandeirola
Você é quebrado, eu sou a cola
Você é azeitona, eu sou a tampa
Você é montanha, eu sou o alpinista
Eu sou a luva, você é pugilista
Você é cabelo, eu sou a tesoura
Eu sou Sansão, você é Dalila
Você é eletrólise, eu sou pilha
Eu sou seu caminho de salvação
Você é o atalho pra minha perdição
Você é o cigarro e eu sou o pulmão
Você é jejum na hora do desjejum

E eu só sei que me amar não te faria mal algum

sábado, 23 de julho de 2011

Eu não sei se te amaria nas próximas três vidas, mas se eu puder escolher, com certeza é você que vai estar diluído no meu sangue, correndo pelas minhas veias, alimentando meu coração. Eu queria fazer pra você uma canção infinita pra eu cantarolar tomando banho, estudando literatura, dando comida pros gatos, penteando os cabelos, cantar pra sempre em todos os lugares que eu fosse e te levar dentro da melodia, dentro da minha cabeça, dentro de mim. Às vezes eu acho que você percebe que eu te amo assim na calada da noite, no frio do vento, no balançar das folhas, no canto da cama, por baixo das unhas, na raiz dos cabelos, no rímel, no barulho do ventilador. Eu fico fingindo que ninguém percebeu, vou me divertindo com o você que existe na minha mente. Ainda bem que você não enxerga através dos meus olhos. De vez em quando, eu acho até que não gosto de verdade de você. Mas quando algo dá errado e eu fico nervosa, tudo o que eu quero é despencar e sentir os seus braços me sustentando. Isso não vai acontecer. Eu não vou cair, não vou fraquejar e você não precisa se preocupar comigo. Mas eu me sinto estranha quando não penso em você. Talvez seja o costume com o seu jeito, seu riso, seus defeitos. Conviver comigo é tão difícil e você faz isso tão naturalmente, sem reclamar e sem se dar conta de como tudo funciona bem entre a gente. Sempre achei que você nunca diria não pra mim. Mas eu digo não pra nós. Prefiro ter uma possibilidade perfeita do que uma realidade arruinada. Só quero que esse gostar seja como a canção que eu não fiz pra você, a cantiga infinita e leve, pra cantar pro bebê dormir, pra cantar pra não dormir, pra sonhar com você de olhos fechados e coração aberto.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Vão-se os dedos e os anéis

Era uma menininha linda mas nasceu sem dedos. Nenhum dos 20, totalmente sem dedos. Nas aulas de Biologia ela ouviu dizer que o gene dominante determina a polidactilia, imaginava que os seus dedinhos estavam por aí espalhados em outras mãos. Em seus braços, terminados em mãos sem dedos, sempre brilhavam muitas pulseiras e seu pescoço e orelhas viviam ornados com bijuterias que punham nela. Até para ir à padaria. Era ganhar mais um agrado e ela corria a pedir que alguém a enfeitasse, amarrasse nela os cordões, brincos e pingentes que tanto amava. Na verdade, nunca sentira tristeza pela falta dos dedos até o dia em que, caminhando pela beira do mar, a menina viu um anel abandonado no vaivem das ondas. Não sabia quem tinha perdido aquela joia e nem pensou em procurar o antigo dono, apaixonou-se perdidamente pelo brilho que jamais poderia usar da forma ideal. Usava-o como pingente em colares e pulseiras, às vezes pedia que o prendessem no laço que amarrava-lhe os cabelos, em último caso, carregava a joia no bolso junto com o dinheiro do pão, como um amuleto qualquer que a protegesse. Mas sabia que por melhor que fosse, nunca seria o suficiente. Um dia, na padaria, ela tirou o dinheiro do bolso com muita pressa e derrubou suas moedinhas no chão. Catou todas e pagou o moço. Quando estava chegando no portão de casa foi que lembrou do anel. Procurou no bolso e nada. Correu de volta pra padaria e se pôs de quatro entre as pernas dos clientes, começou a procurar debaixo dos chinelos e balcões, nos cantos da parede, em meio a tanta poeira e unhas sujas. Quase ia desistir quando viu seu anel brilhando na palma de uma mão acima dos tênis verdes e sujos de um senhor que estava na fila. Ela pediu ao dono da mão que colocasse o anel dentro de seu bolso mas logo se arrependeu imaginando o quão vermelhas suas bochechas ficariam durante a cena. Ele devolveu o anel e disse como se chamava, quis saber o nome da menina e falou algo sobre morar perto dali. Ela se despediu e correu pra casa prometendo a si mesma que todos os dias iria se atrasar para comprar o pão. A verdade é que, pela primeira vez, ela quis ver seu anel brilhando nos dedos de alguém.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Você é meu vocativo. É o seu nome que está entre vírgulas quando reclamo, quando declamo minhas estrelas do Sermão da Sexagésima. Eu me declaro para uma plateia sem acento sem ideia sem acento. Fico esperando no silêncio o frio que nunca vem, ouço aplausos. Ninguém enxerga através dos meus olhos, nem o mais sábio dos homens entende por que o mar se esvazia toda vez que eu deixo escapar um sorriso quando te faço alvo dos meus olhares. Eu queria te dizer que tenho medo, mas já nem há onde se afogar e então eu fico a catar conchas. Há namoros que terminam e há namoros que nunca vêm. Há namoros que não existem. E tudo dói. Como é triste espremer da cabeça um poema quando não há nada no coração, coração já não há. Não posso te ver partir porque você não vem. E eu não vou dormir bem enquanto você não me quiser bem. Vou viver acordada, atenta, incomodada. Vivo a guardar beijos que não posso te dar. Pra você eu só tenho este punhado de estrelas repletas de angústia, ordenadas como num mosaico de azulejos, retalhos de sentimentos que eu alinhavei para você.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Mas ainda o amo

Era tanto amor que eu chegava a me sentir fraca, como se amá-lo fosse uma função do meu corpo que consumisse todas as minhas energias. Eu o amava tanto que sentia angústia. Uma angústia e um ciúme tão brutais e sem explicação, uma vontade de ser ele ou prendê-lo a mim. Queria que ele fosse um brinco, um pingente, um presente qualquer que ficasse preso ao meu corpo o tempo todo. Ele era um homem, diferente dos outros, mas ainda assim um homem. A qualquer momento, poderia me abandonar. Era tanto medo de que ele se afastasse que eu nem queria chegar perto. O abraço dele me apavorava por não ser eterno. Quando ele vinha ao meu encontro, eu preferiria ser suas meias a ser o destino de sua caminhada. Eu não queria ser sua namorada, queria ser suas unhas, suas sobrancelhas, suas hemácias, seu DNA. Não podia suportar que outras pessoas o vissem, o tocassem, falassem com ele. Queria que ele não fosse uma pessoa para que pudesse ser meu e somente meu. Um dia eu fui embora. Ele disse "Volta, amor!" e eu não voltei. Eu nunca expliquei o porquê, só sei que não volto. Mas ainda o amo.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A garota que não estava apaixonada

Ela não estava apaixonada. Decerto eles haviam passado muito tempo juntos durante o verão e era natural que ela estivesse acostumada a sua companhia. Seria bom trazer os sorrisos daqueles dias ensolarados para a rotina de calça jeans e café preto de todos os dias. Na verdade, ele não era apenas uma presença de verão, mas o mês de janeiro o tornou mais íntimos em meio a tanta praia, sorvete e internet. Ela queria vê-lo todos os dias mas não estava apaixonada. Aquele sentimento era uma vontade de cuidar dele, de fazer parte da vida dele para tornar tudo mais divertido. Duas solidões juntas são menos solitárias do que uma só. Mas nada disso significa que ela estava apaixonada. E o ciúme, na verdade, era pra protegê-lo, pra evitar que alguém ferisse seus sentimentos. Ela já havia sofrido tantas decepções que aprendeu assim a se proteger, se é que se envolver sem se entregar é uma forma de proteção. Mas não queria que seu amigo sofresse tanto pra aprender. Tudo não passava de amor fraternal, não era paixão. Mas, pra dizer a verdade, não havia ninguém melhor do que ela para estar ao lado dele, era fácil perceber. Se eles se amassem ela jamais o magoaria, ele dificilmente não a entenderia e provavelmente tudo seria harmônico entre os dois. Se ao menos ele pudesse amá-la... Mas ela não estava apaixonada.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Nós andando de mãos dadas pela praia. Ela grávida ou com bebê no colo ou nossa filha grandinha nos puxando pelas mãos. Os pés sujos de areia debaixo do chuveiro quente. Banheiro claro com espelho grande. O quarto, paredes verdes, colcha de flores, giz de cera pelo chão, papéis. Meus textos, seus livros, os desenhos das crianças. Escola, quem leva, quem busca, almoço. Esperar, com o coração aos pulos, que ela chegue do trabalho. Ouvir a buzina, correr e abrir o portão. Vê-la chegar, cansada do trabalho. Vê-la, rainha, a entrar em nossa casa. A filha corre e se pendura nos braços da mãe, não quer soltar. Jantar em família. Por a criança pra dormir. Falar aleatoriamente sobre assuntos sonolentos. Apagar a luz. Dormir. Dormir num abraço sob a colcha de flores cercada de paredes verdes.
Eu queria ainda sentir, mas não sei mais. Acho que tudo vira ternura. Acabou, não acabou, nunca nada houve. Agora fica essa sede sem saliva, sem limite, sem sossego. Como se a única água que eu conhecesse fosse água do mar. Por medo, por orgulho, ou sei lá por que, eu nunca tive coragem de procurar a água de coco. Subir no pé, pegar a fruta, chegar ao líquido doce com meu esforço. Não. Preferi ficar na espera de que alguém me trouxesse um copo. O tempo passou com cara de choro, com cheiro de chuva. Eu sequei, não sei como, o coco secou. E as águas de março não prometem vida nenhuma.

Toda mulher

Toda mulher foi menininha
E brincava de amarelinha
Ficava toda vaidosa
De vestidinho cor-de-rosa e boneca na mão

Toda mulher se maquiava
Enquanto o amado esperava
Eles andavam lado a lado
E o pai esperava acordado ela chegar às dez

Toda mulher quer casamento
Sonha com o grande momento
Quer vestido, grinalda e véu
E acha que chegou ao céu quando responde "sim"

Toda mulher é meio atriz
Às vezes finge que é feliz
Quando não goza no amor
Quando espera uma flor e ganha um abajur

Toda mulher sabe cantar
Pinta, borda e cuida do lar
Coloca o bebê pra dormir
Enquanto o marido ri com a televisão

Toda mulher sabe de cor
As historinhas de avó
Que quer contar porque ouviu
E vai fingir que nunca riu pra rir mais uma vez

Toda mulher mudou de lado
Ficou no século passado
Toda mulher é diferente e já não sabe bem quem é

Mas sabe o que não quer ser

terça-feira, 24 de maio de 2011

Eternamente

Eternamente é ter na mente, e terna mente, éter na mente.
Eternamente é, ternamente, éter na mente e terna mente.

domingo, 8 de maio de 2011

Nematodamor

Eu andando por aí
Perdida em pensamento
Deixei o amor penetrar meu coração
Mas você andou descalço
Eu não sei por onde
A larva entrou no teu pé
E foi pro teu pulmão
Daí foram mililitros de sangue por dia
A fome do bicho não tinha satisfação
Na hora de ir pra faringe, ela errou de caminho
E bebeu foi todo o sangue do seu coração
Então você me maltrata com sua secura
Esse ancilostoma matou a paixão
Hematófago maldito, destruiu nosso romance
Eu não quero um amor feito de amarelão
Cure sua ancilostomose, essa falta de amor
Vá calçar um sapato, tire o pé do chão

terça-feira, 3 de maio de 2011

O feto

A chuva escureceu o dia
São quase 6 e já é noite
Os carros passam, cartazes e propagandas
A janela do carro é uma tela de cinema
Esse rapaz parece um ator. Qual o nome mesmo?
E o que o ator tem além do próprio nome?
Estamos sob o mesmo céu cor de chumbo
Eu escrevo frases tortas no caminho para casa
Você eu não sei
Olhe o céu cor de oito horas
Céu cor de madrugada
E o peso dessas nuvens sobre nós
Quero um amor sinestésico
Não tenho sentimentos
Mas tenho todos os seis sentidos que uma mulher deve ter
A gente diz que gosta de frio
Mas gosta é de se aquecer
Uma chuva, uma curva
E o risco da caneta atravessa minhas letras
Abandono o rascunho, o feto
O meu poema que ninguém vai ler
Eu achei que pudesse suportar tudo. Eu ainda acho. Mas é que às vezes eu queria poder acreditar que nós temos muito em comum e podemos ser felizes. Às vezes eu te amo tanto. Talvez eu precise ler um pouco. Ou escrever. Ou esquecer. Esquecer que me lembro de você o tempo todo e que, quando te vejo, não quero te enxergar. Queria saber explicar isso. Explicar como parece que tudo poderia dar certo. Se eu fosse outra. Se você fosse outro. Então, nada pode dar certo. Não somos outros, somos só nós. E somos sós. Na verdade, não sei se você é tão solitário quanto eu. Não, você não é. E nem deveria ser. Talvez se você fosse... Talvez você não seja mesmo quem eu achava que era. É, você não é. Acho que não sei nem quem eu sou. Sei que eu não sou uma metade. Dois pode ser melhor do que um, mas um me parece suficiente na maior parte do tempo. Todos dizem que o amor uma hora chega, que o amor precisa do momento certo, todos sabem demais sobre amor. Não quero ser todos. Não sei se ser tão diferente é bom, mas sei que não quero ser igual. Talvez eu não devesse falar tanto, ou me preocupar tanto. Acho que eu deveria falar tudo isso pra você. Mas você não vai entender e eu não quero explicar. Vamos deixar isso pra lá.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O nosso amor deu o último suspiro
E se acabou

Trave aos quarenta do segundo não é gol
Mesmo não tendo juiz pra apitar nosso final
Eu sei que acabou

E mesmo assim
É do seu sorriso que eu quero me lembrar
Passo em claro as madrugadas
E o meu olhar se volta pra dentro de mim
Tento buscar a magia, o encanto, o toque, o quê
Que me fez cair de amores por você

Lembro daquele beijo que eu não te dei
Acho que fiz mal
Vou voltar atrás, quero me repaixonar
Mesmo que esse beijo só diga "oi e tchau"

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Frutinhas

Maria

O meu amor
Me fechou a porta
Meu amor
Me botou pra fora
E agora eu vou
Vou indo embora
Para longe, vou pra onde
Para o Monte Sagrado
Vou de greve
Vou de bonde
Vou de fome, e apaixonado
Ele fica, ele xinga
Ele diz que estou perdida
E eu vou arrependida
Já nem sei o que será de mim.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Largo da palma.
Palma da mão,
O eme, a linha do amor,
Você. E eu.
 
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